16 julho 2007

Enxaquecas

Sempre aprendo algo com as minhas enxaquecas. Depois que parei de tomar remédios, elas se tornaram cada vez mais raras; e como toda beleza possui um toque de feiúra, quando elas resolvem aparecer, me pergunto se vale a pena estar vivo.

Nesses casos, minha veia masoquista se manifesta em forma de valor. Já que eu tenho que passar por certas coisas terríveis na minha existência – nesse caso, resumo essa teoria na enxaqueca absurda que tive esse fim de semana -, me sinto bem em ter escolhido viver, em vez de estar vivo.

12 julho 2007

Cavaleiros da Cydonia

Essa é a primeira vez que eu coloco a letra de uma música aqui. Nunca fiz homenagem a ninguém que não fosse eu mesmo e nunca publiquei nada que não tivesse saído da minha cabeça.

Bem... Como uma dos lados interessantes da vida são as mudanças, aí vai uma letra que eu me esbaldo sempre que lembro. Ela é curta, objetiva e vai direto na veia. "Não desperdiçe o seu tempo ou o tempo vai desperdiçar você"... Tenho usado muito esse trecho dela - involuntariamente - para provocar uma pessoa especial; isso me remeteu ao Muse. A música é cantada com uma fúria empolgante e é cheia de nuanças estranhas. Viva o Muse.


Cavaleiros da Cydonia

Vem cavalgar comigo
Pelas veias da história
Eu vou te mostrar um Deus
Que cai no sono na hora do trabalho

E como nós podemos ganhar
Quando tolos são os reis
Não desperdice seu tempo
Ou o tempo vai desperdiçar você

Ninguém vai me levar vivo
Chegou a hora de fazer as coisas certas
Você e eu temos que lutar pelos nossos direitos
Você e eu temos que lutar para sobreviver

06 julho 2007

Relógio Abstrato

Eu gosto de ser arrogante, amo provocar fúria inusitada e adoro ouvir música muito alta

Eu gosto de fazer carinho, amo beijar úmido e adoro manipular pessoas idiotas

Eu gosto de transar, amo a minha língua talentosa e adoro entregas insanas

Eu gosto de ter unhas afiadas me arranhando, amo beber lágrimas de amor e adoro dar risada despretensiosa

Eu gosto de machucar às vezes, amo pedir desculpas e adoro controlar a crueldade

Eu gosto de ser provocado, amo as diferenças e adoro ser vencido ou convencido

Eu gosto de Bon Jovi, amo dirigir e adoro o meu terapeuta

Eu gosto do escuro, amo ficar em dúvidas e adoro redescobrir

Eu gosto de esquecer compromissos por uma boa causa, amo ser irracional e adoro a inocência

Eu também odeio tudo isso

26 junho 2007

A Dança

Dançando com a morte encostada em meus lábios, sentindo toda a sua sensualidade. Ela crê que me seduz, mas consigo enganá-la. Talvez ela saiba que estou brincando e goste desse jogo.

Assim eu sigo... Vou assumindo o risco de tirá-la para dançar de vez em quando, mesmo sabendo que ela é uma mulher. Nunca tenho certeza de como está o seu humor. Posso dançar com uma inocente elfa nórdica ou com a condessa Elisabeth Bathory.

18 junho 2007

Seu Tadeu

- Olha só, Seu Tadeu, olha... O senhor gosta de ver revistas, né?
- Hummm... Hummmm... Humm... Hum... Hummmmmhuummmhummm...
- Tava impaciente, isso vai te distrair. Foi bom sair do carro, tomar um arzinho... Dona Celeste não vai demorar... Vai comprar as coisas rapidinho...
- Humm... Hum... Hummmhummmhmmm...
- Quer que mude de página? Há certo, tem outras fotos... Eu vou apoiar aqui na cadeira, o senhor me fala quando quiser que eu mude de página, ta?
- Huhummm... Hummm... Humhumhum... Hummm...
-Olha lá a dona Celeste! Estamos aqui! Vem, Seu Tadeu... Vamos para casa, vou preparar a janta do senhor e depois vamos tomar um banho bem gostoso...
- Humhumhummmm...

Essa cena eu assisti ontem à noite na Perini da Orla. Fui lá com um amigo, ele foi comprar algo delicioso e eu quis ficar lá fora. Sentei em uma mesa e tentei achar algo interessante o bastante para que eu não fechasse os olhos e dormisse ali mesmo.

Desceram de um Corsa; uma senhora bem vestida, uma garota que aparentava uns 22 anos e um senhor de cadeira de rodas; foi a maior dificuldade para colocá-lo para fora do carro. Um homem que parecia ser o motorista particular da senhora bem vestida fez o trabalho praticamente sozinho. Esse senhor era velhinho e já parecia totalmente dependente, mal se movia direito. Notei logo que a jovem era a pessoa que tomava conta dele e que não se tratava nem de uma enfermeira e nem de uma pessoa que tenha recebido algum tipo de preparo para executar aquele tipo de serviço. O velhinho tinha cara de criança inocente, só que a garota tinha um ar muito mais infantil.

A bem vestida entrou no mercado da Perini e eles dois ficaram lá fora, bem perto de mim. A garota tinha uma sacola na mão, onde pareciam ter algumas revistas. Ela abriu a sacola e tirou uma revista de mulheres nuas, tipo Playboy, embora eu não tenha conseguido ver qual era a publicação. Ficou mostrando para ele com um ar tranqüilo; no pôster que eu consegui ver com mais clareza, uma morena com glúteos semelhantes ao de um hipopótamo posava de costas e fazia aquele biquinho típico de quem comeu um churro estragado. O velhinho apenas fazia sons estranhos, balbuciava sensações. Não fui somente eu que presenciei isso, algumas pessoas que passavam notaram a cena.

O interessante era perceber que a garota não tinha nenhuma noção que estava protagonizando uma imagem que chamava a atenção, principalmente porque não existia nenhuma malícia nela; só estava distraindo aquele idoso mostrando uma revista qualquer. Enfim... Ficaram os dois ali uns vinte minutos e Seu Tadeu me pareceu um tanto saudoso ao ver a morena hipopótamo.

08 junho 2007

Vazio

E sempre que estiver longe da solidão, esquecerá de observar a si mesma. Acaba sendo informação em demasia, e isso atrapalha. Fugir do silêncio analítico só adiará algo que inevitavelmente vai aparecer; existe falta de opção nesse caso, o que ajuda na decisão. A resposta será unitária. Os pesos internos retardam as curas porque com a presença deles os movimentos se tornam mais devagar. Quanto mais pesos forem retirados do interior e dissecados, menos estática se torna a condição como ser humano. Com essas lacunas livres, as dores se espalham e perdem o poder de concentração deixando aberto o espaço e a coragem para as entregas.

31 maio 2007

Proibições

Impossibilitado de beber, de fumar coisas lícitas ou não, de comer qualquer coisa que não seja líquida ou pastosa, de engolir a própria saliva, de falar, até de transar. Sem apetite algum em virtude dos efeitos de um antibiótico “bomba atômica” que uma médica que se diz minha amiga insiste em me fazer tomar; e eu não tomava remédio algum há mais ou menos dois anos e meio. Não posso falar alto, não posso ficar tomando vento forte, não posso tomar chuva – coisa que eu adoro. Não posso ensaiar o caralho do meu roteiro de um projeto importante que já está mega atrasado em virtude de eu não poder fazer nada há quinze dias. Não agüento mais ouvir sermões de meus amigos que insistem em me lembrar que eu sou um mortal e parar de achar que sou super homem. Não sei para onde mandar tanto tesão acumulado, não sei como me livrar da insistência da minha mãe para que eu coma – porra, eu não tenho fome, vou fazer o quê? Tudo que eu como forçado me enjoa; até ovo, que eu adoro, está me dando náuseas só de olhar.

Como tudo na vida tem o seu lado bom, estou quase com o corpinho daqueles caras que fazem propaganda das cuecas Calvin Klein (é assim que escreve?). Cheguei a voltar a ganhar fã da minha barriga – tinha um bom tempo que eu não sabia o que era ter alguém admirando essa parte do meu corpo.

Já ouvir falar muito na tal da amidalite, mas nunca imaginei que isso doía tanto. Fora o fato de que quase fudeu o meu ouvido esquerdo. Aliás, para quê servem as amídalas? Chamou tanto à atenção da médica a situação “banheiro químico de carnaval” que a minha garganta se encontrava que ela arranjou uma camerazinha e bateu umas três fotos da pobrezinha; isso para usar como exemplo em suas aulas. Lindo, né? Enfim... Para o inferno com essa porra de amidalite.

07 maio 2007

Por Trás das Cortinas - Série 1

Fui caminhando em ritmo acelerado, não era possível ser mais rápido naquele momento. Porra, eu tinha acabado de acordar, a lerdeza ainda era o ponto mais forte da minha personalidade. Espera aí... É que tem uma porra de um cachorro aqui que ta achando que a minha perna é uma fêmea... O canino tá viajando que pode comer minha perna direita... Comer no sentido sexual mesmo... Sai daqui, caralho!

Voltando ao que eu estava tentando dizer: eu caminhava no máximo de aceleração possível. Meu corpo ainda esquentava. Uma pena que eu não tive tempo de me alongar um pouco, ajudaria bastante. Apareciam pessoas bem estranhas no caminho. A primeira delas que realmente chamou a minha atenção foi uma senhora idosa vestida de bombeiro fumando um cigarro de haxixe. Eu a cumprimentei e ela me ofereceu uma tragada. Não aceitei, agradeci e segui em frente. Quando eu estava distante dela, ouvi um grito.

- Me chamo Ângela, querido, o que precisar por aqui me fale, ok? Principalmente se for conselhos, ta?
- Ta Ângela! Prazer e coincidência! Me chamo Angelo também! Por que a senhora está vestida de bombeiro? Tem alguma festa à fantasia por aqui por perto?
- Não meu querido... É porque nesse lugar onde vivo, tudo é imprevisível! Quando você menos espera, pega fogo em alguma parte dele! Mas eu amo o lugar que eu vivo. Ele é real, verdadeiro... Por isso é tão instável...

Segui e não dei muita atenção para a coincidência... A estrada era exótica e depois de mais uns vinte minutos andando, passou um garoto de uns onze anos e eu sorri pra ele...

- Tudo bem, garoto?
- Não, não está... Vai tomar no seu cú!
- Ei, por que tanta raiva?
- Por nada, Angelo... Mas vai tomar no seu cú, antes que eu me esqueça!
- Como sabe meu nome?
- Não interessa! Vai tomar em seu cú!
- Ei pequeno! Você é muito mal educado, sabia? Vou falar com a sua mãe? Cadê ela? E como você se chama?
- Meu nome é Angelo e a minha mãe está na puta que lhe pariu!
- Seu nome é Angelo?!
- É sim, idiota! Tenho o desprazer de ter esse nome cretino! A vaca da minha mãe me deu esse nome em homenagem ao corno do meu pai, que também tinha esse nome. Fora a homenagem a ela mesma.
- Espera aí... Todo mundo na sua família tem esse nome?
- É sim, retardado! Será que você consegue me fazer uma pergunta mais óbvia do que essa? Vamos lá! Se supere e me surpreenda!

O tom de deboche e a fúria do menino me deixou completamente sem saber o que fazer...

- Bem, até logo... Não vou ficar aqui ouvindo uma criança satânica me agredir verbalmente! Ô seu desajustado, vá procurar uma terapia!
- Pode deixar que eu já tô me tratando com a vagabunda da sua mãe!

Depois dessa só me restava continuar. Acelerei um pouco mais, a delicadeza do guri me deu uma injeção de adrenalina. Cheguei a um lugar iluminado, uma luz meio azul... Lindo... E dava uma sensação de calmaria... Uma mulher jovem, linda, de uns vinte e poucos anos, veio falar comigo. Parecia um anjo, bonita pra caralho...

- Olá! Está indo pra onde?
- Não sei... Estou caminhando, meio sem rumo... Como é seu nome?
- Meu nome? Não me conhece?
- Não... Nunca te vi, pelo menos que eu lembre...
- Então é a primeira vez que vem por essas bandas de cá, não é?
- Eu sempre pego a estrada principal, mas chega um momento que tem um monte de desvios. Eu sempre escolho um deles e sigo... Parece interminável o número de caminhos...
- Há ta! Entendi... Bem, meu nome é Ângela.
- Como?
- Ângela.
- Ângela?
- Sim, Ângela.
- Como pode se chamar Ângela? Passei por uma senhora no início da caminhada que se chamava Ângela... Não é um nome muito comum... Depois topei com um garoto psicótico que, além de xingar todos os meus antepassados, tinha uma família inteira de "Angelos"...
- Se você já tivesse passado por aqui, saberia o porquê...
- Nossa... Que estranho...
- Hahahahahahahaha! Não seu bonitinho, não é estranho não... Relaxe!

Aquilo me fascinava, a energia dela era incrível e ainda tinha um sorriso maravilhoso; até esqueci um pouco do garoto.

- Além disso, Ângelo é o meu nome...
- Eu sei.
- Como sabe?
- Porque eu sou você.
- Como assim, mulher?
- Eu sou você. Um pedaço de você. Um pedaço minúsculo... Mas sou parte dos pedaços que te amam...

Tudo era muito esquisito e, apesar de ter ficado atraído por ela, segui em frente.

- Bem, to indo nessa, viu? Beijo!
- Vai lá! Olha... Não fica assustado com nada não... É complexo mesmo, apenas aceite e observe. E se lembre: eu amo você! Quando o ódio aparecer, lembre de mim com carinho! De mim e de outros que aparecerão!

Segui o caminho sem entender muita coisa, como aquela mulher bonita e iluminada poderia me dizer que ela era um pedaço de mim e se chamava Ângela? “Que loucura!”, pensei...

Cheguei a um ponto meio sombrio da estrada. Era cinza escuro o lugar. Vinha em minha direção um homem de bicicleta. Eu continuei, pensei em cumprimentá-lo, mas os meus encontros naquela estrada estavam sendo tão estranhos que eu fiquei na minha.

Quando ele passou por perto de mim, parou a bicicleta e ficou me olhando com cara feia. Estava há uns cinco metros de distância... Bem, não tive muito que fazer a não ser falar com ele.

- Olá... Algum problema?
- Sim, tem um problema sim...
- O que houve?

Ele se aproximou e repentinamente me deu um soco na cara. Caí no chão tonto e com uma dor no queixo...

- Ficou maluco? Por que fez isso?
- Vá embora! Siga o seu caminho, mas volte, não venha por aqui! Vá por outro, cai fora!
- Por que isso, cara? Você me machucou e nem me conhece!
- Cai fora!
- Quem é você, afinal? Quem é você para achar que pode me agredir e que tudo vai ficar por isso mesmo?
- Sou Ângelo e posso fazer o que eu quiser!
- Como?
- Ângelo, seu imbecil! Você é surdo? Cai fora!

Não quis discutir mais, aquilo tudo já estava me assustando. Virei às costas e comecei a correr, voltando todo o caminho que eu tinha feito. Quando eu já estava bem afastado daquele louco, ainda ouvi uns gritos.

- E lembre-se, seu verme: Eu odeio você! Queime no inferno, seu imbecil!

Aquele ódio todo me apavorava, eu nunca tinha visto aquele cara na vida e ele me odiava. Lembrei da linda garota que disse que me amava, enfim... Corri muito, com toda a minha energia, senti um tormento louco. Retornei pelo mesmo caminho, mas não vi ninguém: nem a senhora vestida de bombeiro, nem o menino mal educado e nem a garota linda. Continuei correndo, mesmo ofegante, só fiz acelerar mais e mais...

Então eu abri os meus olhos...

29 abril 2007

Tênue, mas sempre distintos

Mergulho, nado; acho sempre bom estar no mar. A sensação da água tocando na pele, sinto-me protegido do calor insuportável. Existe um mundo imenso de vidas no mar, gosto de dividir as minhas idéias com esses seres, eles não costumam julgar gratuitamente, normalmente passam e dá para abordá-los. Alguns são indiferentes, mas eu não ligo, até me dá sono. É bom, me tranqüiliza... Não sei... Será que me tranqüiliza mesmo? Caio em dúvida sobre essa questão às vezes, segurança é interessante, mas tira muito da emoção. Não existem entregas quando se possui garantia. É um saco... Muito chato mesmo. Todas as vezes que eu coloco a minha cabeça para fora do mar, vejo imagens incríveis, não necessariamente boas, nem precisam ser, mas sempre me dizem algo.

Eu acho que vou sair um pouco da água, meus olhos estão ardendo, vou me expor um pouco ao sol. Não somente vou colocar o meu rosto para fora, vou sair por inteiro e dar uma volta. Sei que o sol está muito forte, mas tudo bem, eu quero sentir calor mesmo.

23 abril 2007

Puxa da tomada que dá certo

É certo que poderia ser uma virtude, mas tem gente que faz mau uso? É, pode ser. Esse é um argumento que serve para determinados casos. Eu sei... Às vezes exagero, até me acho desagradável, mas eu gosto. Se eu gosto de mim? Sim. Aceito as minhas imperfeições, às vezes faço até pouco caso delas. Pode ser que esse seja o aspecto divertido... Gosto de entregas, mas não preciso me comunicar diretamente para ter que deixar claro isso. Não sei se não preciso ou se não faço questão. Aí só o tempo pode me dizer e mesmo assim, ele não me garante nada.

Tudo bem que escrever é mais fácil do que existir; digo existir na prática mesmo. É um saco, muitas vezes é até insuportável. Mas está aí, não é? Fazer o quê? Vamos ver até onde posso ir... Atchim! Obrigado... Bem, é isso... Acho que vou pensar agora, estou sem paciência de desenvolver escritas sobre a minha existência. Só vou pensar porque não tem jeito mesmo. Porque é foda, viu? Tem horas que eu esqueço de viver de tanto pensar.