22 abril 2007

As pernas que andavam, passaram a balançar, mas voltaram a andar

Maraú é um lugar mágico. Uma península paradisíaca no sul da Bahia. Tenho um primo, o Fábio, que eu chamo de Sabonete, que é como se fosse irmão: ele é proprietário de uma área linda, tem um lago fantástico no meio, ele montou um camping e fez a sua casa, há alguns anos. Há dois anos atrás eu resolvi passar quinze dias lá com ele, foi uma época boa para ir para lá, estava vazio, ficamos somente eu, ele e um argentino chamado Guilhermo. Ficamos na casa de Sabonete, que é uma casa bem interessante em sua decoração com troncos e plantas. O hermano portenho era gente boa, tinha aquele sotaque de quem está se esforçando para falar português, mas passa a impressão de que está com vinte balas Soft na boca. Era um maconheiro de mão cheia e estava portando uma das melhores ervas que eu já fumei na vida.

- Anxxelo, queres um bacheado?

- Sim, pode ser...

- Eu vai aperrtar um enroladito para vochê!

- Beleza, manda ver.

Eu tinha levado alguns textos de Freud e de Clarice Lispector para estudar e fora isso, passava o dia inteiro fumando maconha e analisando a vida. É engraçado como o contato com a natureza, depois de um certo tempo inserido nela, deixa a pessoa muito mais sensível. Sempre que eu fico em lugares como Maraú por mais de uma semana, volto para Salvador um tanto retardado, sensível e leve. E a falta do que fazer lá, mexia com a minha criatividade. Depois de fumarmos umas vinte gramas voltando de uma caminhada, dei de frente com uma aranha caranguejeira enorme e peluda, no meio da trilha. A minha reação foi parar e ficar mudo. Enquanto eu analisava o que eu faria naquela situação em frente a aquele ser diferente e cheio de pernas, Sabonete se aproximou e colocou uma caixa vazia grande de cigarrilhas espanholas que ele tinha na mochila e prendeu a aranha. Fez isso com tamanha calma e aquilo me pareceu tão fácil que eu me senti humilhado. A questão é que eu sempre fui bem curioso em relação a determinados assuntos e sugeri que a gente a levasse para o camping, colocasse em um pote grande de vidro e deixasse-a por uns dois dias lá; a idéia era que sempre que a gente fosse fumar maconha, soltasse a fumaça para dentro do vidro. Eu não sei por que, mas os dois toparam. Chegamos ao camping, Sabonete pegou um pote enorme de vidro e deixamos ela lá dentro, aberto mesmo, ela escorregava, não conseguia sair. Batizei-a de Marta. Até a hora que fomos dormir, fumamos uns seis becks e durante todos eles, soltamos a fumaça dentro do vidro. Aparentemente, ela não tinha nenhuma reação anormal, até porque ela iria fazer o quê?

Eu estava tão chapado que deitei e dormi, coisa que nunca faço, nem bêbado, sempre demoro, frito em pensamentos antes de conseguir pegar no sono. Acordei muito cedo, umas seis da manhã, fui ao banheiro e voltei a dormir. Nesse voltar a dormir, sonhei que eu estava em uma rede tomando água de coco e balançando as pernas. Eu apertava o canudo – hábito que eu tenho mesmo, ajuda a dar a impressão que estou economizando e que sobra mais – e no momento em que eu tirei o canudo do coco, pulou uma aranha enorme no meu peito. Estranhamente eu não sentia medo, fiquei apenas parado. Ela olhava para mim, eu conseguia entender que ela me analisava.

- O que foi que eu te fiz? Perguntou com uma voz macia

- Nada... Não fez nada?

- Então por que não me deixa seguir o meu caminho?

Nesse momento eu acordei com uma vontade forte de vomitar. Nem cheguei a respondê-la no sonho. Saí correndo em direção a mesa onde estava o pote com a aranha. Tudo o que eu queria era me livrar daquele sentimento tenebroso que eu estava no peito. No caminho até a mesa, passei por um espelho enorme que Sabonete mantém pendurado no corredor que dá para a sala. Confesso que não estava me reconhecendo. Não sabia identificar se era vergonha, sei lá... Eu simplesmente não queria ver meus próprios olhos. Quando cheguei à frente da mesa, dei de cara com o pote vazio.

- Puta que pariu! Sabonete! Guilhermo! Cadê a aranha? Caralho, cadê a aranha?

- Qual foi man, que escândalo é esse? Questionou-me, Sabonete, que veio correndo.

- Man, a aranha, cara? Cadê a porra da aranha?

- Há, é isso, é? Porra! Relaxa, ela não ta solta pela casa não, cara. To pensando que é algo sério para esse seu pití... Guilhermo a soltou de manhã, disse que sonhou com ela pedindo para ele soltá-la.

Na hora que Sabonete me disse aquilo com um ar de desdém, eu não conseguia processar direito o que tinha acontecido. Apenas voltei para a cama e deitei. Meu corpo estava totalmente arrepiado e os meus olhos encheram de lágrimas. Sabonete acabou percebendo que algo estava acontecendo e veio me indagar, mas eu pedi para que ele me deixasse sozinho, eu queria apenas ficar em silêncio absoluto. Guilhermo tinha saído, só estava eu e ele na casa. Nunca consegui desenvolver em palavras o que aquela aranha fez comigo, depois conversei com Guilhermo sobre o sonho que ele teve, foi diferente do meu, mas era exatamente o mesmo contexto. Não contei sobre o meu sonho, preferi apenas comentar por alto com Sabonete que eu tinha sonhado com uma aranha, mas sem entrar em muitos detalhes.

Ainda não sei bem os motivos, mas ando pensando muito nesse episódio...
Eu deixei esse blog abandonado por um tempão; nunca paro de escrever, mas estava sem saco para dividir o meu mau humor. Para piorar, deu uma pane nessa porcaria aqui e todos os comentários que eu tinha dos textos mais antigos sumiram. Isso para mim foi uma merda, eu tinha alguns comentários geniais, tinha uma galera que fazia quase textos, tinha gente que fazia propaganda, uma psicóloga que usava o nome de "Fênix" e que ficava me estudando, era uma festa da casa da mãe Joana. Óvio que o mais legal era os xingamentos ou quando alguém mandava eu me tratar. Eu acho bárbaro que as pessoas não entendem ou não aceitam admitir que o obscuro existe e isso não é nem ruim e nem bom; não tem que ser, aliás, o ruim e o bom é que atrapalha a vida. Por que tudo tem que receber classificação?

Tom, para você que se diverte, eu voltei, viu? E como eu ando bem humorado no dia à dia, você vai se divertir muito mais, você sabe o que isso significa em relação a esse blog... Aliás, parabéns. Lembrei que hoje é o dia em que o seu pai teve a péssima idéia de transar com a sua mãe, concebendo a sua existência.

30 março 2007

Não criei situações, apenas percebi as possibilidades e deixei ao natural. Em determinados momentos posso até ter ajudado, mas é isso; passou, vai passar ou está passando, tanto faz.

Colocar as vísceras para fora possui um custo, tem gente que acha caro. Eu não sou uma delas, logo...

10 fevereiro 2007

Empolgação é um sentimento que parece uma daquelas drogas que causam euforia imediata, uma espécie de cocaína; depois que o efeito passa, a pessoa desce cinqüenta andares em segundos. Da alegria incontrolável para a sensação de estupidez e tristeza. Lógico que não é uma regra, na verdade são situações específicas, mas como é natural do ser humano, a desgraça é sempre lembrada primeiro em relação às delícias da vida.

A melhor parte: tudo passa e vira motivo de risadas e boas histórias.

07 outubro 2006

Enfim, vou voltar a viajar por aqui... O tempo corrido e a falta de assunto me deixam sem o mínimo prazer em encher a linguíça alheia. Só que estou precisando colocar o meu incômodo mental na ativa.

10 julho 2006

Entre as grandes façanhas que a distância produz, o amadurecimento das verdades soltas no quebra-cabeças terrestre talvez seja a mais interessante, embora não necessáriamente a mais relevante. Até coisas relativamente simples como escrever, por exemplo, tornam-se especiais, no sentido exato da palavra.

20 maio 2006

Divagando

Tempestade passando, aos poucos, mas já tem como sentir uma certa brisa balançando o meu cabelo relativamente crescido. A neve começa a derreter e as nuvens vão sendo substituidas por um clima aconchegante. Dá vontade de tomar um café ou um chá quentinho e esfregar os pés daquela que detém o amor. O positivo da existência do lado ruim é que ele dá os instrumentos certos para saber aproveitar o lado bom. Enfim...

02 abril 2006

Febre

Quarto dia consecutivo de febre e um cansaço inacreditável - sem nenhum motivo aparente, a suspeita é uma puta virose que tá rolando. Bem, se eu não morrer, já que no segundo dia a minha temperatura foi para quase 40 graus, vou filosofar um pouco sobre o ato de delirar, que me pareceu uma experiência enriquecedora. É uma droga meio diferente, faz você lembrar e falar coisas estranhas.

25 março 2006

Ausência

O estudo de música, os bilhões de filmes que tenho assistido, a falta de saco mesmo, estão me dando férias forçadas desse antro de perversão. Volto antes do domingo - viu, Clóvis? - com o humor pior do que nunca. Tenho escrito, só não sei se devo postar o que tenho feito. Fase meio "viada", essa a minha. Cheia de melindres...

07 fevereiro 2006

Quem tem seda?

Para quem teve o prazer de assistir a entrevista o ex-presidente FHC no programa Roda Viva, TVE, na noite da última segunda feira, só restou uma constatação: ele deveria substituir a sigla que utiliza por "THC". Ficaria mais adequado, já que as suas declarações são dignas de um marginalzinho teen chapado de fumo jamaicano - nada contra os jamaicanos e nem conta o fumo da diversão. O cinismo desse Al Capone tupiniquim daria uma comédia de humor negro, dirigida por Almodóvar. Utiliza a sua linguagem técnica de sociólogo para impressionar e a educação elitista para formular agressões falsamente sutis contra o governo de esquerda. Fala da corrupção atual na política como se nada tivesse acontecido em seus oito anos de mandato e ainda se dá ao direito de chamar o presidente Lula de despreparado, ingênuo; insinua o maior esquema de corrupto de todos os tempos no Brasil. "Pior que a corrupção do cidadão é a corrupção das instituições. E é isso que está ocorrendo nesse governo", disse o gênio "THC". É isso. Coloca um reagge aí, gente... Alguém tem seda?