21 setembro 2005

Felinos

Depois de um misterioso encontro, os dois felinos se afastaram; da mesma forma misteriosa que a energia uniu o inevitável, por ironia, afastou. Mesmo que tenha sido apenas uma brincadeira, uma sutil forma de testar e de forçarem redescobertas. O diálogo se desenvolve através do vento, de forma despretensiosa, mas quase sempre no mesmo momento de conexão. É engraçado que a distância apenas fortalece os vínculos... Os dois gatos possuem formas peculiares e únicas de explicarem os motivos. Sendo da mesma espécie, por que teriam visões diferentes para a mesma e óbvia verdade? Só o tempo...

01 setembro 2005

Óbvio

A impaciência e a ansiedade mais parecem um grande amor; são claras e óbvias as opções de possibilidades para se livrar de ambas, em cada mundo isso varia muito. Mas existe sempre um leque relativamente numeroso. O que só faz afirmar categoricamente que "óbvio" muitas vezes é uma palavra sem nenhum sentido porque não se consegue colocá-la na prática. Insano como o amor.

06 agosto 2005

Sobre cães e gatos

Dia desses, conversando com uma amiga, entramos em um assunto sobre animais. Não lembro bem como começou, mas enfim; o fato é que ela me mandou um jargão que já ouvi muitos falarem: "o gato é um belo animal, mas é traiçoeiro". A grande maioria das pessoas que falam isso nunca criaram um gato, nem vou me arriscar a dizer que todas, só para não generalizar. Está certo que falam que o cachorro é o melhor amigo do homem, apesar do bichano não ser correspondido da mesma forma, mas isso é uma opinião típica de quem só criou cachorro. Bem, eu já criei os dois. Hoje só tenho uma gata, a Paty; uma máquina de fuder, repleta de pêlos brilhosos, que quando não está no cio, está grávida. Cara, na real, o gato não é traiçoeiro, é seletivo. Observa, analisa, cheira. Sem falar que é extremamente limpo. Ele não encosta se não tiver confiança na pessoa. Tem gente que fica apreensiva: "o animal está me encarando"! "Está se roçando nas minhas pernas"! "É um felino, não se pode confiar nos instintos de um felino"!

Realmente é mais fácil gostar do cachorro: um ser que vive com a língua - idêntica a um presunto - para fora, babando tudo e a todos, balançando o rabo da forma mais "Carlaperística" possível, só pode cair nas graças do povo. Late para qualquer coisa, fica com a cara de feliz para tudo; sim, é lógico que eu me refiro aos cãezinhos de estimação. Já tive um Pit Bull gay, mas isso é uma outra história. Enfim, esse é o cachorro: uma prostituta carente, que se dá para todo mundo, basta fazer um carinho hipócrita e pronto. Claro que existem aqueles que sofrem de esquizofrenia e mordem qualquer coisa que se mexa, atacam espelhos e fazem barulho o dia inteiro. O Gato é um animal que muitas vezes você se esquece que possui. Gosta de morder, mas quase sempre é apenas uma brincadeira, raramente é para machucar. Come e dorme, não costuma incomodar e poucas coisas são tão relaxantes como assistir esses belos animais se limpando, tomando o seu exótico banho. Para não dizer que são perfeitos, a transa entre os felinos mais parece uma possessão satânica. Uma vez, cheguei meio chapado de vinho em casa e ouvi na garagem dois gatos transando. Estava bêbado e desligado, não associei as coisas direito e tive uma crise de pânico; subi correndo pelas escadas - eu morava no sexto andar - entrei no quarto da minha mãe, peguei a bíblia dela, e fui até os meus discos - isso foi na época dos vinis. Juntei a minha coleção do Slayer, coloquei um pano em cima deles que estavam enfileirados e coloquei o livrão em cima. Tentei rezar, mas me lembrei que eu não sabia. Sempre fui pagão, mas é sempre bom saber algumas preces judaicas cristãs, não é? Sei lá... Vai que o coisa ruim deles resolve aparecer...

Enfim... É uma puta injustiça com os bichinhos. São guardiões, possuem uma sensibilidade ímpar. Traiçoeiro é o caralho. Pedantes, talvez... E se fodam os cachorros.

21 julho 2005

Posso fazer uma outra coisa?

Nesse momento, somente esse corpo pode podar ou livrar-me totalmente. Correndo agilmente até as suas entranhas, eu me mostro. Sou felino, o meu totem está tão presente, meu cheiro é incrível, gosto do ócio para observar. Meus movimentos transcendem a sensualidade. Resiste ao meu olhar? Duvido. Pode até se segurar por orgulho social judaico cristão. Mas quero ver como se comporta ao me peitar de frente e eu sugá-la a ponto de você se deixar possuir; tudo mais o que isso possa representar. Cheirar-te de perto, desafiar. Passear a língua em teus pés, assistir seus cabelos escorrendo pelo rosto; ainda assim sem um beijo. Espírito e carne aflitos. A provocação pode ser apenas um comportamento infantil, meio bobo, mas as crianças são cruelmente sinceras.

Nesse momento você saberá o que é afeto, carinho, amor, sexo... Apenas animais... A fêmea no cio... O macho ensandecido pelo aroma forte. O desejo e a impaciência serão sanados.

Lembre-se: você me autorizou. Fui educado e pedi. Aceite e eu não devolverei: um pedaço de você me pertencerá.

18 julho 2005

Ele

Ele é quem consegue colocar o parafuso no encaixe. Possui a paciência necessária para achar o óbvio, mas que por teimosia parece fugir dos frustrados executores. Monopoliza a preocupação positiva, que é aquela que vem sempre fundida com a ação, e ainda se dá ao luxo de chegar com respostas prontas para perguntas que ainda estão sendo formuladas. Contraditório ao gargalhar dos maiores absurdos, enquanto mantém uma postura sempre séria diante de qualquer situação que coloque em perigo o seu meio. A confiança que adquiriu foi em virtude do espelho que refletia um estímulo que acabava por contaminar toda uma equipe que se surpreende diariamente com o senso de humor, a postura camaleônica, o não comodismo e o temperamento dúbio, mas sem nenhum lado maldoso - talvez apenas oscilação de humor.

A voz não se modifica, mantém sempre o tom baixo; parece se esforçar para ensinar que as grandes vitórias devem ser silenciosas ou no mínimo discretas; estudadas, sim, mas jamais inibidas por riscos rotineiros.

Vários mundos em cada pensamento que se sentam juntos para tentar se encaixar em um consenso complicado, uma guerra de virtudes e defeitos. E por tudo isso, se faz necessária a presença de um bom mediador.

O nome do nosso é Daniel Yokota.

11 julho 2005

Poderoso

Ele é poderoso, mas apenas quando está sem grana. Não é fácil domá-lo, o desgraçado parece que tem personalidade própria; basta pedir algo para incentivá-lo a fazer exatamente o contrário. É rebelde por natureza. Gosta de ficar bem aquecido, a sua preguiça tem um motivo: quando resolve trabalhar desafia corajosamente a gravidade, invade territórios desconhecidos, úmidos e quentes - mas nem sempre. Parece um gato; dorme a maior parte do tempo, de vez em quando se manifesta, enrosca-se no tecido - coisa que incomoda feito a porra - e gosta de agir de surpresa. É muito indeciso nos seus afazeres. Nunca sabe se vai ou volta... Fica nessa viagem particular, vai e volta, vai e volta, vai e volta... E o pior é que como ele é cabeça quente, normalmente fica invocado, perde a esportiva e sai cuspindo para tudo quanto é lado.

Eu sempre quis saber o que ele tanto carrega naquela mochila. Me lembra o Lino, amigo do Charlie Brown, que vivia arrastando uma coberta. Até no mundo dele os baixinhos são alvo de gozação. Pelo menos o fato de ser careca não é um motivo para todos os calvos desejarem ser o Ronaldinho. É nítido que toma muito sol na testa e possui uma peculiaridade: a sua boca é na cabeça. Estranho não? Mas é bonitinho - embora eu só conheça um, não posso generalizar nenhuma informação sobre eles. Não, o meu pai não vale.

Talvez o fato mais interessante é o de ser responsável pela postura de uma espécime inteira. Pode deprimir, ser usado como demonstração de poder, é tanta coisa que gira em torno dele... Uma boa parte da humanidade vive conceitos em virtudes de sua atuação. Por sua causa um chefe de Estado quase perde o emprego. Em contrapartida, um outro grande líder, por praticamente desconhecer os benefícios do seu uso, quer destruir o mundo. Dá até para imaginar a revolta do coitado?

A humanidade não seria o que é se não fosse a existência dele: o falo; o caralho, o pinto, pênis, ele tem muitos nomes e dependendo da sua dimensão pode ser apelidado de taco de baseball, amendoim cozido, ponchete, enfim... O que não falta é criatividade dos possuidores e gozadores de plantão. Pois é... Quanta influência, não é? Não sei se ele só é poderoso quando está sem grana, mas muitos afirmam que ele só tem representatividade quando está duro. Com essa análise fiquei confuso... Mas enfim... O que não faz um caralho, hein?

05 julho 2005

Chamas, comédia e tédio

A musa se deitou para arrogar-se totalmente aos prazeres carnais. Cheiro que entregava explicitamente o desejo; simplicidade e ternura. O macho cercava tornando o ritual sensual em total provocação. O uniforme tinha ficado para trás, apenas a essência se fazia notar. O lençol de seda começava a se mover com cada vez mais freqüência e os olhos que se encontravam esporadicamente, estacionam frente a frente.

Os olhos do macho lacrimejavam exibindo certa vergonha, mas era inevitável. Por alguns instantes quis se livrar do seu papel social e se entregou à verdade dúbia.

Ela, depois de assistir atentamente ao rito de honestidade, caiu em uma barulhenta gargalhada enquanto o falo do Shiva já se encontrava nas entranhas. Ele não resistiu muito tempo diante daquela atitude que supunha ser uma conseqüência do prazer. Ao questionar o motivo, recebeu um olhar brilhante e uma aproximação de face: "Eu sou soro positiva", cochichou no seu ouvido a bela fêmea.

A gargalhada continuou...

30 junho 2005

Elite

Não que seja impossível, mas é quase um equívoco essa convivência. A existência de amor não torna irrelevante o fato que nem sempre fica tão claro; a consciência cega como forma de proteção. O fundo do poço é raso, qualquer gota faz uma enorme diferença. Os cálculos, apesar de exatos nos seus resultados, teimam em executar interpretações e práticas dúbias. Existiria relatividade na matemática?

A noite é indescritível, o prazer e a diversão. O desgosto matinal é quase uma piada de mau gosto. Humor negro também é valido... Verdade. Inexplicável.

Talvez eu seja a elite da convivência. Um caixote de opiniões em forma de hipérboles e metáforas, esnobe sem nenhum tipo de intenção, apenas sucumbo a um simples fato. As possibilidades que surgem em virtude das poucas nuanças opcionais que limitam de forma seletiva uma verdadeira aproximação.

Ficou clara a falta de caminhos para uma fuga. Bem ou mal, a rota de colisão está instalada

16 junho 2005

Rosas Graúdas Vermelhas

Algemado, ele sucumbia à imagem da fêmea se masturbando com o salto de um sapato fino. Não parecia doentio, apesar da agonia dele; queria se aproximar. A iluminação de velas, o cheiro de couro novo se misturava com o agradável odor das frutas exóticas. A cadeira era pesada, mas ele conseguia se arrastar.

A chave da porta fica um pouco emperrada, ele demora para conseguir abrir. Acaba tomando um pouco de chuva. Um pequeno saco de supermercado em uma das mãos. Na outra, um buquê com algumas rosas vermelhas graúdas e de cheiro marcante. Esfregou os sapatos úmidos e um pouco enlameados no carpete e, já na cozinha, abriu o pacote cheio de frutas exóticas. Lavou-as. Tirou toda a roupa e subiu lentamente as escadas com as duas mãos ocupadas; rosas e frutas em uma bandeja de prata. Ouviu gemidos... Diminuiu os passos e os sussuros se confundiam com palavras balbuciadas.

O homem agredido não podia se defender. A bandeja de prata já estava avermelhada, a dança de cores parecidas. Os vermelhos das rosas e sangue.

Ela já estava prestes a gozar. A velocidade do salto aumentava, os movimentos tinham uma certa sincronia. Parou. Catou uma rosa jogada no chão e mergulhou em uma poça de sangue em volta da cadeira. Esfregava carinhosamente no próprio sexo, sentia cócegas.

O som alto com a equalização ruim, talvez algum problema em uma das caixas. Ele ouvia Blind Melon; chorava compulsivamente. As lágrimas se misturavam com a água que jorrava da torneira da pia, onde ele lavava meticulosamente uma bandeja de prata.

04 junho 2005

...

"... E quando eu percebi, observava atônito os cabelos longos desgrenhados diante do vento forte, cada vez mais distante. Eu pensava se devia chamá-la, mas a vontade não surgia. Sensação engraçada. Ela estava de costas, caminhando lentamente; às vezes parava, mas em nenhum momento virou o rosto para mim. Novamente sensação engraçada: não senti falta disso, apesar da beleza da imagem. A silhueta diminuia e um sentimento de vazio e alívio tomaram conta. Me virei e caminhei. Dessa vez peguei o caminho do lado esquerdo..."